A ambição como o travão do sucesso

Como equilibrar a Saúde emocional através do autoconhecimento
November 16, 2017
O poder do autoconhecimento – Viva ao 86 graças à consciência de si
December 13, 2017
Show all

Se estamos na era de empreendedorismo, se estamos numa era em que é nos vendido a necessidade de sucesso, como ainda continuam a rastejar na nossa mente o sentimento de pecado e mau estar em ralação à ambição, ou a necessidade de não sermos ambiciosos? A questão impera a urgência da redefinição do significado deste conceito, antes que ele seja o travão do sucesso.

Ciente de que as nossas crenças definem os nossos valores e os nossos valores as nossas escolhas e estas as nossas ações, senti uma curiosidade de explorar o tema, começando por pesquisar o significado da palavra no dicionário. Fiquei de boca aberta com a sua definição.

Na sétima edição do dicionário de língua portuguesa Porto Editora de 1994, ambição é definida como aspiração, cobiça, desejo, pretensão, avidez, ganância, interesse, inveja, voracidade…

No dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico Porto: Porto Editora, 2003-2017, disponível na Internet, ambição é definida como desejo veemente de riqueza, honras ou gloria, expectativa em relação ao futuro, aspiração e cobiça, ganância e sede, projeto e desafios cuja realização exige muita coragem ou capacidade, ousadia ou risco.

O Dicio, Dicionário português on line, define ambição como desejo desmedido pelo poder, dinheiro, bens materiais, glórias, cobiça,  obstinação intensa para conseguir determinado propósito; vontade de alcançar sucesso; pretensão: tinha a ambição de um dia ser cantor.

Este dicionário apresenta anseio, sofreguidão, avidez, cobiça, sede como sinónimos da ambição e desprendimento como o antónimo.

A definição encontrada demonstra que o conceito ambição está intimamente associado à ganância e à cobiça

A definição encontrada demonstra que o conceito ambição está intimamente associado à ganância e à cobiça, que embora não constam dos sete pecados mortais da fé católica cristã, é sentida e tratada como tal.

Recordando da minha infância, lembro-me da minha mãe, a maior responsável pela minha educação, uma católica convicta, a contar a história de lázaro. Ficou-me que “é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha de que um rico entrar no reino dos céus”.

Mais tarde, na faculdade, no exame oral da disciplina “ciências sociais”, perguntaram-me qual era a diferença entre a religião católica e protestante na perspetiva de Max Weber. Na altura não soube responder. Cheguei a casa e vi os apontamentos e a ideia que me ficou é de que os católicos condenam a riqueza e os protestantes a glorificam.Recordando da minha infância, lembro-me da minha mãe, a maior responsável pela minha educação, uma católica convicta, a contar a história de lázaro. Ficou-me que “é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha de que um rico entrar no reino dos céus”.

 

As pessoas sentem-se mal ao serem confrontadas com o conceito ambição

Guiada pela curiosidade do que pensam as pessoas a minha volta sobre o assunto, comecei a perguntar o que lhes vem à mente quando percebem que estão frente a um caso de ambição ou uma pessoa ambiciosa. “Penso mal dela. Acho que as pessoas ambiciosas acabam mal. É preciso ter cuidado para não ser vítima de ambição. A ambição leva a ganância…” seguindo por aí adiante. Uma das pessoas abordadas disse que já mais mostraria a sua ambição no local do trabalho porque fica mal. Mesmo entre os empreendedores, encontrei relutâncias inconscientes à ambição, o que me levou a refletir “como terá sucesso um empreendedor que não se alimenta da fome de querer mais?”

 

“Se estamos na era de empreendedorismo, se estamos numa era em que é nos vendido a necessidade de sucesso, como ainda continuam a rastejar na nossa mente o sentimento de pecado e mau estar em ralação à ambição, ou a necessidade de não sermos ambiciosos?”

Continuei a minha pesquisa, e fui espreitando a internet para ver o que dizem os empreendedores e impulsionadores do sucesso. O blog “Saiadolugar”, num artigo que questiona a bondade ou não da ambição, define a como uma mola propulsionadora que faz os nossos projetos avançarem, o que diria Elvis Presley “um sonho com motor V8”.

Este artigo frisa que a ambição negativa é quando ela se baseia na egocentricidade, que o avanço não olha a meios, atropelando tudo e todos. O autor do mesmo frisa que existe uma associação automática da ambição à ganância, o que também se confirmou na conversa com as pessoas sobre a temática e se verifica nos dicionários consultados.

 

A associação da ambição à ganancia pode estar associada a mensagem passada por filmes e livros sobre a temática.

Alguns autores justificam esta associação com o tratamento que os filmes e livros que nos alimentam dão a esse tema. As histórias infantis alimentam a fábula de que não é necessário esforçar para ter mais, como se algo acontecerá por mão divina, atribuindo por vezes o esforço aos vilões sem sucesso. As novelas e filmes retratam os ambiciosos como os vilãos ou mesmo os maus da fita.

Eugénio Monteiro, num artigo publicado em 2016 no jornal público intitulado “Ambição o motor do progresso” refere que o avanço da sociedade deve-se á ambição pessoal e coletivo. “Sem ambição, não há esforço orientado, as metas são indefinidas e haverá pouco impulso para fazer mais”, afirma, frisando que é a ambição que nos puxa para fora da acomodação e da zona do conforto.

 

Definido por autores diversos como“ intenso e veemente desejo de obter uma coisa difícil de conseguir”, todos eles concordam que é um antídoto ao conformismo e uma alavanca para o desenvolvimento, o que elimina o medo de fracassar, contudo alertam que aliado à ausência da ética pode ser muito perigoso e é nessas circunstâncias que é associada à ganância.

Estamos na era do empreendedorismo e do culto do sucesso. Friederick Hayer disse que “com o sucesso nasceu a ambição”, frisando que o Homem tem todo o direito de ser ambicioso, o que assume hoje a minha coachee afirmando com convicção: “eu tenho o direito de ser ambiciosa”.

Para compreender de onde veio a condenação da ambição, a minha coachee olha para trás e recorda os pais, emigrantes em França dos anos 70, a esforçarem-se muito para oferecer a melhor educação às filhas. Ela entende essa atitude como “ambiciosa” embora na altura tenha sido associada ao esforço e ao trabalho árduo, e qualquer relação com a ambição era traduzida como ganância, cobiça e avidez, o que a formatou para não ser ambiciosa.

A ambição não tem que estar associada à ganância. Elas são coisas distintas. Podemos dizer que são irmãs, por ambas nascerem da vontade férrea, mas o que lhes diferencia são os valores dos indivíduos protagonistas dessa vontade.

Não é a ambição que derruba as pessoas, é o atalho no caráter

O nosso carácter está intimamente associado às nossas atitudes com efeitos diretos nos nossos resultados. Não é a vontade férrea que define a ambição ou a ganância de um ser humano, mas sim os valores que lhes guiam na prossecução dessa vontade. Se houver “atalho no carácter” mais cedo ou mais tarde isso será revelado, provavelmente numa “queda maior que o avanço”, como temia a minha coachee.

Olhando para trás, posso dizer com toda propriedade que o meu entrevistador dos CTT estava errado. Se há coisa que eu não sou é “conformada”. Na altura, se estivesse a pensar nisso, também não me chamaria de ambiciosa porque ficava mal. Diria que sou curiosa com o desconhecido e que isso puxou por mim. Mas não deixo de reparar numa quantidade de pessoas que continuam no mesmo lugar, na mesma situação, ano após ano, naquilo que nem se quer pode ser chamado de “zona de conforto”, mas sim, como na parábola da morte do sapo, “zona morta” e desperta em mim a necessidade de acordá-las, atirando-lhes água a ferver.

Para que as pessoas não sejam travadas pela ambição, sugiro que o conceito seja redefinido no dicionário e na crença coletiva e desassociado da ganância.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *