Desejo de ser mulher com privilégio de homem

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“Deus nos livre de menino fêmea que nasceu na lua de rapazinho”. Ainda hoje esta frase soa-me como se acabasse de a ouvir. Assim, mostrava a sua preocupação a minha avó paterna, Apolinária, conhecida por Naia, quando eu transgredia a fronteira de assuntos reservados a homens. “Mulher não dá gargalhadas que fazem eco, mulher não fala alto, mulher não senta de pernas abertas, mulher não coloca as mãos entre as pernas, mulher não, mulher não, mulher não…” eram tantos os “nãos” que hoje digo graças a Deus, embora lembro me deles, eles não alimentaram a pessoa que eu sou. Muito pelo contrário. Quem me conhece sabe que sou do contra e da contravérsia graças a Deus, devo ter sido salva por essa desobediência crónica que também só era tolerada aos rapazes.

Nasci e cresci em Longueira dos Órgãos, mais concretamente na localidade “Pedra Comprido”, onde éramos os únicos habitantes, embora rodeados de vizinhos ao alcance da vista com os quais podíamos comunicar a viva voz, no raio de um quilómetro.  “Pedra Cumprido”, não é erro de concordância, é nome, fica numa colina profunda, se  tomarmos em consideração a cordilheira da montanha que de um lado lhe serve de fronteira com uma zona arborizada que se pode chamar de floresta plantada. O declive da colina perde acentuação, pela cordilheira de pequenos montes que ladeia do outro lado, um a suceder o outro, que nos coloca no centro de um ciclone estático, com um canal visual que me permitia ver até o mar e sonhar.

Eu gostava do sítio mas, sonhara construir a minha casa no cimo da montanha, quanto mais alto melhor, para alargar a vista, o que a minha avó Naia, confidente porque me escutava como ninguém me escutou, corretora porque ela me balizava até nos sonhos sublinhava: “Mulher não constrói casa, isso é coisa de homens, mulher que deseja morar no cutelo (monte) tem que ter atenção para não ser coscuvilheira.” A minha avó era sábia, na sua versão de mulher costela de adão.

Eu sou fruto de…

Muitos anos depois de cumprir parte do sonho que não partilhara com a minha avó, espreitar outros mundos, creio que já devia saber o que ela ia me dizer “mulher não deve ser atrevida”, de tanto escutar “pára de ser atrevida, pára der ser confiada”, o que graças a Deus não parei, estava eu na sala de aula de ciências sociais com o professor Óscar Barata e este professor trouxe me a completa compreensão da minha avó. O professor estava a falar de culturas patriarcais e que em casos mais profundos destinavam os recursos escassos aos rapazes e as raparigas morriam à mingua. Os rapazes eram o garante da continuidade do nome e da própria linhagem da família. Creio que até veio me as lágrimas aos olhos, quando voltei literalmente para uma tarde da minha infância e confidência com a minha querida avó ela ter verbalizado que “na falta da comida dá se aos rapazes e não às raparigas, para que os testículos destes não fiquem inchados” o que eu respondi com rapidez, rispidez e desaforo que é típico de criança rebelde, esquecendo o respeito cultivado sobre os mais velhos, as autoridades, “e porque é que a minha pitada (vagina) podem inchar” o que terminou com a minha face entre as mãos de tanto ardor, porque ao terminar a minha intervenção despida de respeito pela minha avó, a minha mãe que passava por perto deu-me um corretivo, porque se há coisa que não se tolerava a nenhum dos sexos é desrespeitar a autoridade, seja ela de pais, de avós ou de qualquer adulto.

Naquele momento, naquela sala de aula, eu percebi quem eu era. “Eu sou um produto de uma sociedade patriarcal”. Depois acrescentei. “Machista”. Isso abriu-me um apetite feroz para a antropologia humana, história e psicologia, tudo que tenta explicar o inexplicável comportamento humano. Veio me a memória, muitas conversas com a minha avó, que posso dizer a minha maior socializadora, cujos efeitos foram contrário. Porque quanto mais ela tentava feminizar-me, mais queria eu ser um homem e procurava comportar como tal, agora já não sei se por puro prazer de desobedecer ou por curiosidade sobre o porquê da pedastralização daquela casta.

Aproveitei do pouco cabelo que tinha e recusava fazer grodes (tranças) para parecer um homem. Usava chapéus e calções dos meus irmãos e quando desfilava pela aldeia, sentia claramente que as pessoas pensavam que eu precisava ou de um corretivo ou de trato de curandeiro.

Nessa parte, beneficiei da minha família não ser adepto de corretivos físicos exceto quando se viola toda a fronteira da decência e se é descoberta e não acreditarem em super poderes, por isso nunca carreguei nenhuma proteção no corpo, mas a minha cara estremeceu varias vezes com bofetões da minha mãe sobre tudo por colocar questões desafiadoras e contestatárias no que concerne ao privilégio de homens e desprivilegio das mulheres, pelo menos como eu via as coisas.

Simplesmente rebelde

Hoje, visto de longe, compreendo tanto que torna confuso. Se recordar do discurso do meu pai, era um homem tão machista nas palavras, “o homem sem juízo é equivalente a 7 mulheres no seu juízo perfeito, homem é de ferro mulher é de vidro, a mulher é como um pano branco, mancha-se com facilidade”, mas ninguém no seu tempo foi tão defensor de igualdade de género na prática. Era uma altura em que as mulheres não tinham acesso ao ensino, e o mundo onde vivíamos encontrava um risco perigoso na leitura e escrita das mulheres “escrever carta ao namorado”. Já a minha avó que tinha terceiro grau dizia que “antes escrever cartas ao namorado do que encontrar-se com ele debaixo de uma árvore”.

 Meu pai defendia na teoria o que ele conhecia, a supremacia masculina e na prática contribuía para independência da mulher, mandando as filhas para a escola.

Machista no discurso igualdade na prática

Agora que estou a escrever este artigo, eu juro que consultei 5 livros e ainda não fiz uso de nenhum porque a memória insaciada está ao rubro, dei conta que a minha rebeldia pode ter vindo da minha própria mãe que tanto me combateu com tabefes. Ela nunca se curvou ao discurso do meu pai, respondeu-lhe à letra as suas teorias machistas, lembro-me particularmente de uma conversa acesa em que ela respondeu com poucos modos “que o pano branco fique manchado eu não quero saber, mas não aceito isso”, não me lembro do assunto concreto.

Fazendo uma pausa para respirar, caso o leitor não percebeu estou a escrever em alta velocidade, dei comigo a questionar porque estou a escrever isto. Percebo que estou a esforçar-me para justificar o meu contributo na disparidade dos géneros, estou a esforçar-me para fugir da minha responsabilidade no contributo que tenho dado na construção de uma sociedade onde ainda é preciso falar de igualdade de géneros e em que a mulher seja a reclamante.

Não digo que me envergonho disso, mas os elogios que mais cocega me fizeram e se encontram nítidos na minha memória são as que fui comparada ao homem. “Tomas decisões como um homem”, disse me um homem já lá vão mais de 20 anos. “Pareces o pai, sabemos que resolves o problema” a mais recente dita por uma mulher.

Eu sempre quis ser mulher, com direito a maternidade: Sei disso porque lembro em tenra idade ter negociado com a minha mãe ser enfermeira em vez de freira, para poder ter os meus próprios filhos. O que realmente queria era ser mulher com privilégios de homens. Oiço vozes a dizerem que nós as mulheres queremos igualdade de género sem abrir mão de privilégios de ser mulher.

Eu cresci, fiz-me adolescente e comecei a desejar encantar os rapazes. Nessa altura apercebi que não conseguia isso jogando bola com eles ou andando aos tabefes com José Maria de Mana Iva, com Hermínio de Nisa ou com Funa de Pequena. Sim, enquanto crescia lutei mais de que uma vez com esses rapazes para impor o respeito, ou para provar que sou como eles.

Ser mulher com privilégio de homem

Tudo isso foi substituído por saias curtas, pó de arroz, sapatos altos decotes assanhadas, águas de colónia para atrair o olhar do sexo oposto. Fiquei triste por perceber que alguém que eu amava não ia casar comigo, não ia fazer de mim a sua senhora, construir uma casa para eu morar, lutar para que eu não privasse de nada, fazer de mim sua princesa, sua rainha e coisas assim. Ao passar por tudo isso, o normal percurso de uma adolescente jovem mulher, seria de esperar que depusesse o machado.

Mas um dia, quase que por golpe de magia, recuperei o machado. A luta passou a ser de outra natureza.

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