Em busca da supremacia feminina

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“Isto é ser feminista”, disse me Soraia numa voz carregada de convicção e de gozo, quando lhe contei a minha determinação passada, visto de agora um quê “estapafúrdia” de provar que sou superior aos homens. Soraia e eu discutimos várias vezes temas quentes que tem a ver com mulheres e homens e acusei algumas posições dela de feminista gabando-me de não ser dessa tribo. “Eu sou uma pessoa”, dizia, ilustrando a minha tendência pacífica citando Victor Hugo “O homem é a mais elevada das criaturas; A mulher é o mais sublime dos ideais” para provar a minha imparcialidade de género. Esta é a forma como me via, antes de fazer um profundo levantamento e análise da minha memória.

Por isso, referindo-me a recuperação do machado para novas lutas, não creio que foi por golpe de magia. Foi uma longa e árdua caminhada. A perceção é que foi mágica, género “era uma vez…”

O laboratório foi o mesmo, mas este sem mentores. O comentário da Soraia deu me um murro no estômago. “Afinal eu sou filha do meu pai, numa mão a narrativa, noutra a prática.”  Isto porque estou em crer que apesar de tudo, tive práticas igualitárias. Terá sido uma conjugação inconsciente? Ainda hoje pergunto se o meu pai tinha a noção do peso das suas palavras machistas e a relação desta com uma prática igualitária. Eu não tinha. Tinha “um discurso altamente corrosivo contra os homens” num esforço para demonstrar a minha supremacia sobre eles, numa jornada de mãe solteira a educar dois rapazes para um  mundo igualitário.

A materialização da mulher dependia de um homem

Ainda muito jovem, observei como a relação de homem mulher se processava na sociedade onde nasci e cresci. Não que seja algo claro, ou que alguém me tivesse dito objetivamente, apenas identifiquei que “a materialização da mulher dependia de um homem”, o que resultava em casamentos disfuncionais, viúvas brancas (casadas com imigrantes que nunca regressavam), eternas amantes (mulheres que perderam virgindade com um homem e ele casou com outra e elas mantiveram presas a ele) ou casamentos arranjados com inúteis da sociedade.

O casamento não me parecia um conto de fadas, mas sim, um conto de sobrevivência ou de preservação de bom nome da família. Parecia que só o casamento livraria a mulher da miséria ou de um destino pior. Mas eu reparava que muitas ficavam ainda pior depois de casadas. O destino pior era estar na boca do mundo que parecia ser um motivo maior da infelicidade individual e familiar. Ainda hoje parte me o coração lembrar de uma mulher que confidenciou-me que no dia do casamento foi maltratada pelo marido e que apenas casou para que a família não carregasse o fardo de ter uma filha mãe solteira, já que o primeiro filho já tinha nascido.

As perspetivas de sobrevivência justificam as “Mulher não” da minha avó

Já mais me esquecerei da minha primeira visita à Serra Malagueta. Tinha pouco mais de 15 anos e nesse dia o frio deixou de ser para mim uma mera palavra do dicionário e passou a ser uma experiência cinestésica. Foi a primeira vez que toquei nas nuvens, ou elas tocaram em mim, mas não gostei porque pareciam agulhas espetadas nos meus ossos. Serra Malagueta fica a mais de 1000 metros sobre Santa Catarina e separa este concelho do Tarrafal e Calheta São Miguel. Trata-se de uma aldeia habitada na altura, segundo a minha observação, por uma significativa percentagem de “viúvas brancas” e “amantes de homens casados”. Tive essa perceção ao falar com, chamamos lhe Maria, que me esclareceu como as coisas funcionavam por aquelas bandas.  “As jovens perdem a virgindade com um imigrante em visita a terra e fogem com ele durante a estadia, de preferência ficam grávidas como prova viva de quem as desflorou. Depois, o emigrante regressa à diáspora e elas ficam anos a espera e no desengano, amantizam-se com um homem casado”. E eu curiosa, “porquê um homem casado?” O que respondeu Maria com clareza no raciocínio “se ele é casado é porque tem algo a dar a mulher e onde come uma pode comer duas”, uma matemática que só digeri anos mais tarde nas aulas de sociologia, ciências sociais e afins.

Sim, este caldeirão, não sei se sociológico ou de sobrevivência justifica todos os “mulher não pode” da minha avó e porque “mulher que fala alto não casa” etc…. decidi durante muito tempo que preferia rir alto a casar e quando me apaixonei encolhi o meu sorriso em nome da boa postura. Quando me libertei, fiquei tão feliz, tão feliz que não cabia em mim, mas logo depois, tomei a peito a libertação de todas as mulheres, inclusive as da Serra Malagueta do grupo Maria. No meu pensamento, as mulheres deviam poder escolher ser o que quisessem e não serem fruto das circunstâncias ou seja lá do que for.

Para algumas mulheres o casamento era um conto de forças…

Um dos 10 momentos mais felizes da minha vida, foi o dia que descobri que todo o discurso de uma sociedade estava errada. “Cuidado para o homem não te enganar. Cuidado para o homem não fazer troça de ti, cuidado para o homem não te desonrar” e nessa última era mais “desonrar a família”. Nesse dia, ficou claro para mim que não só, não havia possibilidade de um homem me enganar ou fazer troça de mim, mas se calhar eu dele. Isso libertou-me. Eu já tinha reparado que as mulheres solteiras não eram assim tão desgraçadas como se fazia crer e que as casadas não eram tão bem sucedidas e honradas como me era vendida a história. Tinha reparado ainda que muitas funcionalidades da família devia-se às mulheres. Havia muitas famílias cujos homens tinham um crónico problema de álcool e que o barco era suportado e comandado pela mulher, onde o casamento é realmente um conto de forças para ela. O que realmente percebi é que “era tudo uma questão de recursos”, que numa sociedade patriarcal era suposto ser gerido por homens. Então veio me a ideia de que se as mulheres garantissem os seus recursos casariam se quisessem, escolheriam o que quisessem ser. Nesse dia senti-me livre.

Visto a esta distância, aprisionei-me logo de imediato numa luta para a libertação de todas as mulheres e quando dei por mim, todas elas estavam livres e eu presa na luta. Porque hoje, a maioria das mulheres não imaginam que um dia houve crenças do género.

Foi nessa altura que me deve ter nascido a fúria da supremacia sobre o homem.  Sei dessa existência pela análise detalhada da minha narrativa. Começou com os meus irmãos, “vocês vestem as calças e eu é que carrego os tomates”, quando se tratava de resolver problemas. Eu sou a 8ª prole de uma ninhada de 12 filhos legítimos, depois de mim só veio rapazes. Muito tive que lutar para me impor, porque naquela realidade, parecia que tudo que vinha da mulher tinha um valor secundário.

Já na minha vida profissional, dei conta de uma espinha aguçada para a liderança masculina. Uma vez, liguei ao meu chefe para o informar que ia sair naquele momento porque tinha uma pessoa de família a precisar de cuidados e o homem lembrou-se de me perguntar se não podia agora não me lembro o quê, só sei que ele não queria que eu saísse do trabalho aquela hora. Eu sem meias palavras, “não estou a ligar para pedir autorização, estou a comunicar que vou sair agora”.

Porque serei primeira dama se posso ser presidente?

 “Porque vou ser primeira dama se posso ser presidente, porque serei embaixatriz se posso ser embaixadora?” Lembro de mim muito exigente com os homens a pensar “se eles têm que estar acima de mim têm que ser superior a mim e têm que provar isso.” Uns amigos mais próximos diziam, em jeito de brincadeira, que eu estava a ocupar posição de homem, que tinha discurso de macho e que colocava-me numa postura nada feminina. Na altura respondia, “já sei, assim ninguém casa comigo”, seguido de um irónico “e quem é que ti disse que eu quero casar?”

Já adulta, a viver em Portugal, tive uma discussão violenta com um rapaz, por ele insinuar que a minha casa não teria respeito se o meu irmão não vivesse lá e que o meu comportamento não me permitia casar como se casamento era a única utilidade da mulher. Tive que aguentar os comentários de algumas mães casadas que disseram às filhas que eu não era digna de exemplo por não ter um marido e andar a brincar de estudar. Ok, aguentei muita coisa. Nesta parte de aguentar, acredito que também a minha volta aguentaram muita coisa. Eu era literalmente vista como ave rara.

A esta altura da leitura, já deve estar a perguntar, a que se deve a tudo isto. Pois digo. O efeito do meu discurso feminista camuflado, do meu esforço para ilustrar a minha superioridade sobre os homens. Os meus filhos absorveram tudo que eu dizia, todos os meus suspiros, as minhas afirmações, os meus comentários e creio até o meu pensamento.

Resultado? Bastante diferente em cada um, sobretudo no que esperam das mulheres. “Um espera para além do que elas estão dispostas a dar e não aceita qualquer coisa e outro espera menos do que elas têm para dar e recebe menos do que merece.”

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