O dia que cheguei a este país há 33 anos

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Faz hoje 33 anos que cheguei a este país. Recordo-me desse dia como se tivesse acontecido ontem, com todos os pormenores emocionais. Saí da ilha de Santiago pela manhã. Na altura ainda não havia aeroporto internacional Nelson Mandela. Os voos internacionais partiam todos da ilha do Sal. Saí de pensamento, local da residência da minha família, por volta das 10 da manhã. O meu filho Alex, tinha 18 meses. Ele acordou bem cedo a fazer birra como se entendesse que alguma coisa ia acontecer. A minha mãe fê-lo adormecer embalando-o nas costas segurado num pano. Ninguém resiste ao pano e às costas de uma avó. Isso facilitou-me a vida porque a dormir não tive que gerir o drama de ele correr atrás de mim como acontecia quando ele dava pela minha saída. E esta era uma saída diferente de todas as que ele havia testemunhado.


O táxi chegou. Escrevendo isso volto a sentir a sensação. Apertei o nó no peito para segurar as lágrimas e manter-me focada. Agora não me lembro bem se foi no peito ou na garganta. Havia um nó que segurou as lágrimas. Abracei a minha mãe que estava na soleira da porta. Com olhos cheios de lágrimas ela deu-me a sua bênção. “Deus te acompanhe no teu caminho minha filha”. Manteve-se em pé, segurada à porta. Entrei no táxi. Os meus irmãos entraram comigo. Lembro-me do táxi ter ido cheio mas a memória só fixou a presença do Kiki e do Adi.


Eu lembro-me de vizinhos a fazerem-me adeus e eu concentrada em segurar as lágrimas. Não queria chorar à frente dos meus irmãos. Tinha que manter a postura. Era assim que me viam. Era assim que eu me via. Uma pessoa forte não chora. Eles nunca me viram a chorar em adulto e não era naquele momento que eu ia para Lisboa, onde, supostamente, tudo era perfeito que isso ia acontecer.


No aeroporto Francisco Mendes, lembro-me de ver os meus irmãos do lado de fora da sala de embarque e sentir-me tão longe como se já estivesse no estrangeiro. Não tenho bem a certeza, mas creio que fui ao vidro que servia de fronteira e colocar a mão como se estivesse a tocar nas mãos deles que estavam de lado de fora. Deve ser daí que me vem o sentimento de “tão perto e tão longe” que me ocorre quando penso nisso.Lembro que quando o avião levantou o voo tive uma sensação estranha na barriga, não sei bem se frio, se calafrio ou outra coisa qualquer.


Nessa parte da história estava ansiosa. Havia um novelo a desenrolar na outra ilha. Eu nunca ouvira falar do dia de são Valentim, mas tinha assuntos de coração a resolver na ilha do Sal. Devo ter começado a pensar nisso quando deixei os meus irmãos. Quanto mais o avião se distanciava da Praia, a sensação migrava da barriga para o coração. Quando o avião começou a baixar para aterrar, agarrei-me ao banco de frente com força, visto de agora, acho que não pela terrível sensação do aterrar para quem está a andar de avião pela primeira vez, mas pelo que me esperava ali. O meu namorado estava a porta do avião à minha espera. Ele tinha esse privilégio. Era polícia de alfândega e estava em serviço naquela ilha.


A viagem para Lisboa só ia ter lugar as quatro e meia e eu cheguei a ilha do Sal por volta do meio-dia. Tínhamos um bom bocado para tratar de assuntos de coração, da gestão do filho que ia ficar com a minha mãe entre outras coisas. Mas do coração nem um pio. Do filho também não. Falamos de coisas triviais. Ele levou-me para almoçar. Curioso. Foi a primeira vez que alguém me levou para almoçar num restaurante. Serviram jardineira, coisa que os meus olhos não estavam habituados. Fixei no verde dos grãos da ervilha e na laranja da cenoura. Na altura não estava habituada a comer com garfo e faca. Melhor dizendo, não sabia usar o garfo e a faca. Lembro-me de tentar espetar o garfo na ervilha e não ser bem-sucedida. A comida ficou intacta. O meu sobrinho de 4 anos que me acompanhava na viagem foi o único que comeu. Lembro-me do empregado da mesa perguntar se havia alguma coisa de errada com a comida. Levantou a mesa praticamente como a colocou. Se a comida estava boa não sei. Que era linda aos meus olhos, era. Estávamos ocupados a dizer um ao outro pelas lágrimas aquilo que não fomos capazes de dizer pelas palavras.


A hora ia-se aproximando. Os colegas do meu então namorado vinham brincar com ele. “Foge com ela. Não a deixes ir. Vai com ela.” Respondíamos com simpatia, mas estávamos a arder por dentro. Quando íamos para sala de embarque, e ele como profissional do aeroporto pôde entrar comigo, passou pelo chefe dele que reclamou estar atrasado para o trabalho, o que prontificou um colega em defesa dele, “chefe perdoa-lhe hoje. A pequena dele vai embora”, o que o outro fez foi primeiro uma cara de mau, depois deu um sorriso fraterno e disse, “então acompanha-a até ao avião e tira o resto do dia”.


O que me lembro a seguir é que quando saímos, da sala de embarque a caminho do avião, ele fez-me a pergunta que acredito que lhe queimava no coração o dia todo e ele não fez por receio da resposta. Confesso também que tive esse receio, mas estava demasiada ocupada a controlar as minhas emoções para não chorar. Mas ali, baixei a guarda, sobretudo quando no aperto de um abraço de incerteza, em soluços e lágrimas ele balbuciou, “vais voltar?” Curiosamente, lembro-me, com clareza, ter respondido “queres que eu volte?” E ficaram duas perguntas sem resposta.


Eu entrei no avião e fui guiada por alguém, porque trazia uma criança na minha companhia e estava desorientada a chorar literalmente, de guarda baixa. Ficou-me a imagem dele a caminhar ao lado do avião, de ombros caídos e cara no peito, a limpar as lágrimas. Trazia uma camisola azul-marinho de gola branca. Caminhou devagar, com passos pesados até desaparecer-me da vista, levando com ele, parte de mim.


Os meus soluços devem ter sido perturbadores, lembro-me do meu vizinho de lado a tentar consolar-me e dizer às pessoas que já estava tudo bem comigo.


Cheguei a Lisboa. Já era noite. Não me lembro do aterrar do avião, das peripécias do SEF (Serviços Estrangeiros e Fronteiras) e nada do género. Apenas que havia vinho no avião com fartura e que as minhas garrafas e as do meu sobrinho foram parar ao vizinho do banco que tomou conta de nós.
Quando saímos da zona controlada, avistei o meu irmão e a minha cunhada, mas não lhes prestei atenção. Os meus olhos maravilharam-se com algo espetacular, que não imaginei alguma vez ver. Parecia uma planta transparente, que cuspia permanentemente as folhas em jato de luzes. Lembro-me de ter pensado: “Lisboa é realmente linda”. Não sei se perguntei ou não pelo nome da maravilha. Só sei que ainda hoje, cada vez que volto ao aeroporto lembro-me dessa fonte luminosa.

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